4 de fevereiro de 2010

Gentes de Mansoa









Numa das poucas vezes em que saí do orfanato e me aventurei por outras cidades e aldeias ao redor de Bissau conheci Mansoa e as suas gentes bem de perto.
Rostos lindos mas marcados pelas dificuldades e pela luta pela sobrevivência que têm de travar todos os dias.
O que mais me impressionou nestas incursões que fiz por algumas aldeias foi o facto de ver sempre muitas crianças, muito mais do que adultos, e que pareciam estar completamente por sua conta.
Na Guiné-Bissau quase metade da população tem menos de 14 anos de idade... e são órfãos.
Um número assustador e que é o resultado das muitas doenças que fragilizam e vitimizam este povo tais como a malária, a cólera e o HIV.
Mas culturalmente a Guiné é também muito rica.
A sua população é constituída por mais de 20 etnias com línguas, estruturas sociais e costumes bem distintos tais como os Fulas, os Mandingas, os Papéis, os Balantas, os Manjacos, os Mancanhas, os Beafadas e os Cassangas.
E foi em Mansoa que surpreendentemente me deparei com esta diversidade cultural, num dia em que celebravam... até hoje não sei bem o quê...
Um dia inesquecível em que tive a sorte e o privilégio de poder registar com a minha máquina fotográfica alguns momentos únicos.

1 de fevereiro de 2010

Rosas e reis por um dia...




Foi com grande orgulho e com muito prazer que pude participar e assitir à festa de final de ano lectivo da Escola Comunitária Emanuel em Bissau.
Uma das minhas funções nesta escola era a de coordenar as aulas de artes e de trabalhos manuais.
Em conjunto com alguns dos professores da escola primária criei ateliers onde as crianças e os próprios professores puderam dar asas à sua imaginação.
É sabido que os africanos são muito criativos e que têm uma grande sensibilidade e veia artística mas normalmente não podem pô-las em prática pois falta-lhes a matéria-prima...
Desta vez esse problema não se pôs pois no seguimento da campanha de ajuda humanitária que levamos a cabo ainda em Portugal pudemos levar muito do material necessário.
Para além das cartolinas, marcadores, tintas, tesouras, colas, etc. levei também na minha bagagem uma enorme vontade de ajudar e de contribuir para que todas as crianças daquela escola tivessem acesso ao mesmo tipo de aulas que as nossas crianças têm cá.
E foi numa destas aulas que tivemos a ideia de fazer um pequeno teatro onde os mais pequeninos pudessem ser rosas e reis por um dia...
Lembro-me como se fosse hoje de estar sentada no chão da nossa sala de aulas (por ser mais fresco) numa manhã quente e húmida em que a temperatura rondava os 40 graus e de, com a ajuda de muitas mãozinhas irrequietas, ir transformando as cartolinas que tinha comprado no Porto em coloridas máscaras e coroas para as nossas flores e os nossos reis usarem na festa de final de ano.
São estes momentos que sei que vou guardar para sempre na minha memória e no meu coração.

27 de janeiro de 2010

Vestidos que passam mensagens







Na Guiné-Bissau quem costura são os homens.
Uma tradição que passa de geração em geração.
Conheci um rapaz que com pedaços de tecidos africanos fazia arte.
Na sua tabanca e com um pequeno gerador que lhe fornecia a energia para pôr a máquina de costura a trabalhar, chamava a atenção de todas as mulheres que por lá passavam enchendo a aldeia de mil e uma cores.
Nos tecidos africanos cada padrão conta uma história.
As mulheres quando os usam estão a passar uma mensagem.
Estes vestidos são apenas alguns dos muitos que trouxe de Bissau depois de 2 meses e meio de trabalho voluntário num orfanato.
Estes vestidos também passam uma mensagem.
A mensagem da solidariedade...

26 de janeiro de 2010

Nada acontece por acaso...



Se há frase que eu repito constantemente é esta: "nada acontece por acaso".
Acredito piamente nela e hoje tive a prova disso mesmo.
Hoje foi um dia particularmente difícil para mim em que tive que lidar com algumas situações menos agradáveis e que ir buscar, nem sei bem onde, alguma energia positiva para conseguir manter um sorriso.
Mas como tudo tem uma razão de ser a minha felicidade estava prestes a surgir.
De longe chegou uma notícia pela qual eu ansiava há já muitos meses.
A Madona, uma das meninas do orfanato por quem eu me apaixonei no primeiro dia em que a vi e que passou por momentos complicados ao ver recusada a sua adopção, vai finalmente ter uma família.
Depois de alguns entraves relacionados com questões burocráticas e de ter sido retirada "abruptamente" do orfanato e levada para a tabanca no mato eis que tudo se resolveu e os pais adoptivos a foram buscar.
O que eu mais desejo é que esta menina tenha um futuro cheio de amor e que brilhe como uma verdadeira estrelinha.
Para mim será sempre a minha estrelinha...
Boa sorte para esta princesa.

"O Livro Negro das Cores"



Foi através da minha amiga Clara H. que tive conhecimento da existência de uma escola para meninos e meninas invisuais na Guiné-Bissau.
Nesta escola de nome Bengala Branca todo o trabalho que fazem é de uma entrega e dedicação incríveis apesar das muitas dificuldades que atravessam no seu dia-a-dia.
Para além de todas as carências que estas crianças têm e que é generalizada por todo o país, existe ainda uma enorme barreira à sua aprendizagem: faltam os livros em Braille e os brinquedos especiais tais como as bolas de futebol com guizos para que as crianças saibam em que direcção está a ir a bola e possam assim brincar como todas as outras.
Conhecendo bem esta realidade a Clara, como voluntária da Humanitárius, resolveu associar-se a esta causa e está a angariar brinquedos e livros em Braille para que estas crianças possam brincar em segurança, aprendam a ler e para que tenham um futuro mais risonho.
O "Livro Negro das Cores" é um exemplo de um mimo que lhes podemos enviar.
Uma ideia fantástica, de uma enorme sensibilidade e imensa criatividade.
Um livro para quem vê e para quem não vê, um livro negro mas onde a cor é rainha.

"Preta é a cor dominante da obra, apenas as palavras se escrevem a branco. As ilustrações são em relevo (verniz negro) para que se sinta através do tacto cada uma das cores descritas. Desenhos elegantes e delicados. Nas páginas ímpares, na parte superior, reproduz-se o texto em Braille."

Para saberem como fazer chegar estes livros às crianças da Bengala Branca deixo aqui o contacto da Clara - clarahugman@gmail.com



25 de janeiro de 2010

Injustiça...


Sempre ouvi dizer que "a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos".
Acredito plenamente nesta frase e no seu significado.
Muitas vezes cometemos injustiças e não nos apercebemos de que estamos a ser uma ameaça a nós próprios, à sociedade e ao Mundo.
Ela anda de mãos dadas com a incompreensão, com a falta de amor pelo próximo e com o egoísmo.
Vivemos muito centrados em nós mesmos, surdos, cegos e mudos às razões, necessidades e realidades dos que nos rodeiam.
Tal como a minha querida e doce Cumba nos mostra no seu desenho, prefiro acreditar na Paz o que pressupõe que sejamos justos.
Quero acordar "amanhã" e ver um Mundo sem injustiças...

21 de janeiro de 2010

O orfanato visto do céu...





Estas fotografias aéreas tiradas pelo Joel num dos seus fantásticos voos em paramotor pelos céus de África mostram bem a dimensão da instituição Casa Emanuel.
O que começou por ser um orfanato que acolhia não mais do que 14 crianças transformou-se num espaço onde hoje reina o carinho, a dedicação e o amor a mais de 150 órfãos.
Nelas podemos ver os edifícios que foram sendo construídos ao longo dos últimos 4 anos com muita luta e muito trabalho e com a ajuda de organizações como a Cooperação Portuguesa e a Amic.
A rodear as árvores e os exóticos jardins estão a escola comunitária, a residência dos voluntários, a cozinha, as cantinas, a residência das crianças, o centro médico e as casas dos missionários. (1ª e 2ª fotografia)
Tudo isto concentrado num pedaço de terra que outrora era mato e que hoje alberga toneladas de esperança...
Um trabalho admirável e que eu pude comprovar com os meus 5 sentidos.

Um exemplo chamado Gil





O Gil é um rapaz muito especial.
Tenho um carinho tão grande por ele...
De todas as crianças que conheci na Guiné-Bissau foi uma das que mais me marcou e pela positiva.
Apesar de não ser órfão o Gil, à cerca de 2 anos atrás, foi pedir abrigo ao orfanato por não "gostar" das condições em que vivia com a família na tabanca.
Excepcionalmente, a responsável desta instituição abriu-lhe a porta e resolveu dar-lhe uma oportunidade.
Tenho para mim que ela sentiu no seu coração de mãe, sensível e marcado por dezenas de anos de dedicação às crianças deste país, que ele era uma criança diferente.
Desde o primeiro dia que lá entrou, o Gil tem tido um comportamento exemplar.
É muito meigo com os mais pequeninos, é responsável, cuidadoso, trabalhador e está sempre disposto a ajudar.
Ao contrário da maioria das crianças da idade dele, gosta de andar muito bem arranjadinho, limpinho e mostra ter muita "sede" de conhecimento.
Na tabanca onde vivia mal tinha hipótese de ir à escola estudar e por isso quando chegou à escola do orfanato teve que frequentar várias classes ao mesmo tempo para poder melhorar a leitura e a escrita.
Adorei ter o Gil nas minhas aulas e depressa percebi que ele era um bom exemplo para todos os outros alunos.
Podia ter dores de cabeça, estar cansado ou até mesmo ter sintomas de malária mas o Gil nunca faltava às aulas.
Os seus desenhos eram de uma incrível perfeição (guardo alguns comigo) e o esforço que fazia para escrever com uma letra direitinha era enorme.
Pois é... o Gil depressa passou a realizar outras tarefas de grande importância para o bom funcionamento do orfanato e neste momento é o responsável pela padaria.
É das mãos dele que nasce o pão que é servido nos pequenos-almoços e lanches das centenas de crianças e funcionários da Casa Emanuel.
Espero, ainda este ano, poder comer o pão que o Gil amassou.
Já ouvi dizer que é delicioso...
Só poderia ser, pois esta criança é um exemplo de vida para muitas outras e a prova de que se pode mudar o destino independentemente do meio hóstil em que se nasceu e de todas as condições parecerem apontar para uma vida sem futuro.
Ainda ontem à noite o Gil me telefonou (antes de regressar a Portugal dei-lhe o meu telemóvel) e foi tão bom perceber que continua a ser uma criança especial...

15 de janeiro de 2010

Ser criança na Guiné



Adoro esta fotografia e este mural!
Eles ilustram bem a realidade de algumas das crianças da Guiné-Bissau.
Aliás, eles ilustram a realidade das crianças que têm a sorte e a possibilidade de ir à escola para aprender.
Mesmo assim a vida destas crianças é muito dura.
Fazem dezenas de quilómetros por dia, a pé, para poderem estudar.
Fazem-no com a cadeira às costas e com um pequeno caderno, quando ele existe, e que terá que durar todo o período das aulas.
Fazem-no debaixo de um calor abrasador e quase sem terem comido nada.
Na maior parte dos casos as refeições que a escola lhes proporciona (um prato com arroz e feijão) são as únicas que terão ao longo do dia.
Sem a ajuda da comunidade internacional este povo mal conseguiria sobreviver.
Na escola onde dei aulas a maioria da roupa, material escolar e alimentos a que as crianças vão tendo acesso é resultado dos donativos que países como Portugal, Espanha, Brasil e EUA vão angariando.
Uma realidade bem diferente da das nossas crianças...
Uma realidade que é urgente mudar!

9 de janeiro de 2010

Um hospital para todos







"Coração na Guiné - Expedição 2010"
Nunca é demais falar neste projecto e na diferença que ele poderá vir a fazer na vida de centenas de crianças, jovens mães, grávidas e restante povo da Guiné-Bissau.
Tal como já disse anteriormente o principal objectivo da campanha "Coração na Guiné - Expedição 2010" é a angariação de material médico e hospitalar para que possamos ajudar a equipar dois centros de saúde.
O Centro Médico Emanuel (um mini hospital), que tão bem conheço e que está a precisar urgentemente de material para que a maternidade começe a funcionar e a receber as mães para efectuarem os partos em segurança, e o Centro de Saúde da Jocum, uma organização sem fins lucrativos localizada no interior da Guiné que tem trabalhado incansavelmente e praticamente sem condições junto da população mais carenciada.
E quando falo em população mais carenciada estou a referir-me praticamente a toda a população deste país pois infelizmente a Guiné encontra-se nos primeiros lugares no ranking dos países mais pobres do Mundo.
No entanto, e para que tal aconteça, precisamos da colaboração de todos os que quiserem ajudar e contribuir para esta causa pois sozinhos e em tão pouco tempo será muito mais difícil concretizarmos os objectivos a que nos propusemos.
Sabemos que muitas vezes existe material usado e para doar nos hospitais, clínicas e centros de saúde. Se por acaso tem algum conhecimento nesta área ou alguma informação que nos possa dar entre em contacto connosco pois poderá ser de grande utilidade.
A partir de agora todos os dias contam, todas as horas e até mesmo os segundos.
Estamos a trabalhar a contra-relógio para que a ajuda chegue o mais depressa possível ao seu destino.